O Brasil é Multicolorido

 


"Banho de Cheiro" - Rute Sato
São Paulo

Antes de falarmos sobre a história do patchwork no Brasil é preciso fazer uma introdução a colonização do país, para que se possa entender sobre a diversidade cultural do mesmo.

A coroa Portuguesa não se mostrou interessada durante muitos anos na exploração daquelas novas terras, o que propiciou incursões de outros povos europeus; como franceses e espanhóis que buscavam as riquezas naturais, principalmente o pau-brasil, árvore cujo pigmento era utilizado no tingimento de tecidos na Europa.

Os primeiros habitantes (aventureiros e sobreviventes de naufrágios) desenvolveram uma forma de integração com os nativos, inclusive criando laços familiares, dando início a uma colonização involuntária e a uma miscigenação cultural.

Aliás, mistura de cor, raça e cultura: esta é a melhor definição do Brasil.

 

 

 


A Nação brasileira foi formada por três grandes “povos”: os ameríndios, os europeus (principalmente da península Ibérica) e os africanos (África Ocidental).

Situado na América do Sul, o Brasil ocupa o quinto lugar do mundo em extensão territorial. Um gigante dividido em cinco regiões (Norte, Sul, Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste), com costumes culturais diferentes, determinados pela grande extensão territorial, pelo clima, pela riqueza de matéria-prima, pela predominância de cada um destes povos formadores, além da miscigenação com outros grupos imigrantes como os espanhóis, os italianos, os judeus, os alemães, os árabes e os japoneses.

Os indígenas brasileiros cultivavam algodão, algumas mulheres fiavam para a confecção de redes de dormir, mas não produziam o tecido propriamente dito. As fibras vegetais eram trabalhadas em forma de trançado.
O algodão tornou-se uma das principais culturas no início da colonização, e a atividade de tecelagem manual desenvolveu para a formação de uma variada indústria doméstica de produção de fios e tecidos.
Um dos fatores que ajudaram no desenvolvimento da tecelagem manual era o fato de que os nativos andavam nus, e os padres jesuítas tinham uma preocupação em vestir aqueles que estavam sendo catequizados. Além disso, com o desinteresse de Portugal em colonizar o Brasil, os habitantes que aqui se fixaram não tinham muitos meios de adquirir produtos industrializados. Era necessário produzir para a própria subsistência como futuramente também serviu para vestir a mão de obra escrava trazida da África.

Basicamente em todas as propriedades havia um tear para a produção manual de tecidos de algodão, que eram utilizados na confecção de peças de vestuário, roupas de cama, mesa e banho entre outros. Os tecidos de algodão  eram grossos, sem o refinamento dos tecidos nobres conhecidos na época, e eram destinados às classes sociais mais pobres além dos escravos e indígenas. Houve um crescimento estrondoso nas "indústrias caseiras" fazendo com que o produto "têxtil" nacional tivesse uma melhora em sua qualidade.  A abundância dos pigmento naturais também proporcionou diversidade de cores.
 

 

 

Motivada pela crise mercantilista da época, a obrigatoriedade de Portugal em importar tecidos da Inglaterra, a necessidade de mão de obra nas lavouras e principalmente nas minas de ouro e ainda mais, o crescimento da indústria têxtil brasileira, Dona Maria I, rainha de Portugal, proibiu em 1785 a atividade de tecelagem manual no Brasil. Nesta época, as indústrias caseiras fabricavam não só o tecido de algodão para vestimentas de indígenas, negros e caboclos, mas também já podiam ser encontrados fustão, chitas (chintz) e alguns brocados.

A tecelagem manual passou a ser uma atividade proibida. Entretanto, com o avanço de pioneiros para a região central do país, esta atividade persistiu nesses locais, sendo hoje, o Centro-Oeste e o Triângulo Mineiro (interior da região Sudeste) uma das poucas regiões do Brasil que ainda mantêm esta tradição.

 
Em 1808, a família real portuguesa foi para o Brasil fugindo das tropas de Napoleão. O contato com a “corte” trouxe uma mudança nos costumes locais, e conseqüentemente no desenvolvimento de atividades manuais como bordados e rendas que davam “glamour” ao artesanato local.

O brasileiro nunca se moldou aos hábitos culturais e artísticos dos colonizadores. A miscigenação cultural deu origem a uma de suas maiores características: a criatividade.


As mulheres brasileiras se inspiravam nos trabalhos manuais trazidos da Europa, mas davam o toque “tropical” com a utilização de matérias primas locais, principalmente os fios de algodão e acrescentando cores ... muitas cores.


O Brasil não tem muita tradição com trabalhos em tecidos, mas a atividade com fios e linhas sempre existiu.
                  



"Florada do Ipê em Setembro" de Regina Barbato
 São Paulo - SP
 


"Pássaro de Fogo" - de Regina Barbato
São Paulo - SP

Podemos dizer que os primeiros trabalhos de patchwork brasileiros começaram a ser criados através de fantasias, trajes típicos e adereços para as festas e manifestações folclóricas e religiosas, como o Boi Bumbá, as Cavalhadas e o Carnaval. Tudo multicolorido, sempre enriquecidos com muitos bordados.

Com uma diversidade de matéria-prima para o desenvolvimento de um artesanato extremamente variado, com inspirações indígenas (barro, palha, fibras), portuguesas (arquitetura, festas populares e religiosas) e africanas (música e objetos de rituais religiosos), o artesanato brasileiro ainda foi enriquecido com as culturas dos imigrantes europeus e asiáticos e, consequentemente esta mistura está presente em qualquer manifestação artística e cultural do país.


Em meados do séc. 19 o então Imperador D. Pedro II convidou para virem ao Brasil, os plantadores de algodão bem sucedidos dos Estados Confederados  (derrotados na Guerra Civil Americana).  Fundou-se então a cidade de Americana, no estado de São Paulo, onde viviam cerca de 3000 famílias de confederados. Juntamente com estas famílias, vieram para o Brasil os primeiros quilts. Dessa imigração norte-americana resultou a primeira fábrica brasileira de tecidos de algodão.
Os imigrantes norte-americanos eram em sua maioria Presbiterianos, e os pastores e missionários também contribuíram para difundir, não só a religião, como também vários aspectos da cultura americana, que influenciaram inclusive o sistema educacional adotado no país.

O clima quente e a preferência do brasileiro por artes manuais de fios e linhas, como crochê, bordados e rendas não permitiram o desenvolvimento da atividade de quiltar. Entretanto, o patchwork encontrou aqui diferentes formas de apresentação.


O fuxico, de idade secular, tem a sua criação atribuída (cogitada) aos escravos africanos, entretanto, eles se popularizam dentro do universo do patchwork no início do século 20.. Um pequeno círculo colorido, com as extremidades alinhavadas e franzidas inspira a criação de pequenos enfeites e adereços até a composição de peças grandes como colchas.
O fuxico é um artesanato de patchwork típico que está presente em todas as regiões brasileiras. O termo “fuxico” em português é sinônimo de “fofoca” (cochicho) e, segundo o folclore local, ele recebeu este nome, uma vez que as mulheres se reuniam para costurar e ao mesmo tempo “cochichar” sobre a vida alheia. Para saber mais sobre a história do fuxico, leia o nosso artigo sobre este tema na seção retalhos.

O fuxico esteve associado a classe social de baixa renda e/ou a comunidades rurais. De uma década para cá, com o surgimento da customização e a introdução do patchwork na moda e decoração, é que ele começou a ser valorizado.

 

 




Bonecas
ABAYOMI
"Ciranda".
 




"Flores do meu Jardim"- Rosa Paranhos - Belém - PA.
         Para os fuxicos, foram utilizados retalhos de roupas de filhos e netos da autora guardados por quase 30 anos.  A colcha foi presente para sua filha.
 No detalhe, a etiqueta da colcha.  
 

 

 


"Memórias de uma infância"
de Rute Sato
São Paulo - SP

As bonecas de trapo também fazem parte da cultura brasileira. Introduzidas pelos europeus e americanos, as bonecas de trapo originaram dois tipos de artesanato têxtil genuinamente brasileiro: as bonequinhas do Nordeste (mini bonecas coloridas de retalhos) e as bonecas negras Abayomi: boneca de pano, sempre negra, de confecção muito simples, que não utiliza cola nem costura e os retalhos são apenas amarrados. De formas e tamanhos variados (de 2cm a 1,5m), representam figuras mitológicas, do cotidiano, personagens circenses, manifestações folclóricas e culturais.

Também podemos destacar algumas colchas de retalhos confeccionadas principalmente pela população da zona rural. Não há uma preocupação formal de criação de imagens. São retalhos coloridos, aproveitados de roupas velhas, reunidos de forma aleatória para formar colchas utilitárias. Não há a presença do sanduíche, são colchas com a parte da frente e o forro.
 

 

 

(veja foto - Memórias de uma Infância – de Rute Sato, a colcha demonstrada na foto é o que podemos considerar como modelo de colcha de patchwork brasileira).

Durante o regime militar brasileiro (1964-1984) houve um incentivo muito grande a entrada no país de missionários evangélicos, principalmente os norte-americanos. Essas missões evangélicas contribuíram para difundir o patchwork tradicional americano em terras brasileiras.
Os missionários americanos ajudaram na propagação de algumas técnicas de patchwork, como “folded patchwork” e “strip piecing”, trabalhados principalmente em tapetes, tornando-se artesanato típico nos estados de Minas e Goiás (regiões Sudeste e Centro-Oeste respectivamente).

No Brasil, o patchwork sempre esteve associado à atividade de reaproveitamento realizada por pessoas das classes sociais mais pobres e da zona rural. A semente plantada pelos missionários americanos aliada ao contato com o patchwork tradicional americano por algumas brasileiras de classe média que moravam no exterior e o interesse de alguns descendentes de imigrantes japoneses e alemães, deu-se início a criação dos primeiros quilts nacionais.

 

 


Em 1981 foi criada a COOPAROCA uma cooperativa de trabalho artesanal da favela da Rocinha (a maior favela da América Latina) voltada para o desenvolvimento de produtos artesanais para decoração. Resgatando técnicas como o “fuxico”, o “crochet”, o “bordado” o “amarradinho” (trabalho feito com pequenos retalhos amarrados) e o “patchwork”. O trabalho da COOPAROCA com enfoque profissional e social, desenvolveu uma melhoria na qualidade de vida das artesãs, gerando trabalho e renda para as moradoras das favelas. Foram consolidadas diversas parcerias, principalmente no setor da moda e decoração, transformando a COOPAROCA em uma marca de destaque nesses setores, tanto no Brasil como no exterior. O trabalho da Cooparoca introduziu o patchwork na moda brasileira.
 


" 25 de março" - de Rute Sato - São Paulo - SP.
    Quilt mostra a rua 25 de março, na cidade de São Paulo, o paraíso comercial para qualquer artesão.
      
 

 

 

No início dos anos 90 alguns grupos de mulheres da classe média começaram a se reunir formando os clubinhos de patchwork no mesmo molde das associações americanas. Nesses clubinhos há a divulgação da atividade através de aulas, projetos individuais e coletivos.  

Foi nesta época que surgiu o Clube Brasileiro de Patchwork e Quilt em São Paulo.

Nesta mesma época, também surgiram as primeiras lojas de tecidos e materiais exclusivos para patchwork e quilting.

 

 

 

Em 1998, foi realizado o primeiro Festival Brasileiro de Patchwork e Quilt, na cidade de Gramado (na região Sul). Nesta primeira edição, o evento recebeu um público aproximado de 1000 pessoas e 90 inscritos nos cursos. O casal José Mauro e Carmem Netto, realizadores do Festival, iniciaram contato com outros grupos de patchwork, promovendo cursos e a aprendizagem de novas técnicas.

Atualmente, o Festival é composto por uma mostra competitiva, além de mostras temáticas paralelas, uma Feira de Produtos e Serviços e o Patchwork Fashion - desfile de roupas e peças em patchwork.
Cada edição oferece também cursos, oficinas e palestras de professores nacionais e estrangeiros. É considerado o maior evento de patchwork na América Latina.

O Festival Brasileiro de Patchwork e Quilt é um dos eventos nacionais que mais se assemelha aos grandes eventos internacionais em grandiosidade e principalmente na mostra competitiva possuindo regras extremamente elaboradas para o julgamento dos Quilts.

 
 
Além de pequenas feiras e exposições, durante todo o ano fazem parte do calendário brasileiro, outros eventos fixos, nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
 


"Negrinho do Pastoreio" de Joyce Loss.
    
    (Imagem cedida pela comissão do Festival Brasileiro de Patchwork e Quilt).
 

 

 

 
Na última década houve um avanço significativo no desenvolvimento da atividade de patchwork e quilting no Brasil. Um dos fatores que contribuíram para este avanço foi a internet que abriu caminhos para a troca de informações com também para compras de materiais e ferramentas específicas para a atividade. A comunidade virtual de patchwork no Brasil faz diferença no que diz respeito à propagação do patchwork. Os grupos virtuais são bastante populares e procurados entre as quilteiras.

Também foi na internet, em 2001, que surgiu o primeiro Jornalzinho de Patchwork e Quilt . Milla Whiteman, uma brasileira que mora na Escócia, criou um jornalzinho virtual que leva informação, promove debates, troca de idéias e incentiva o desenvolvimento do patchwork no Brasil.

Neste mesmo ano foi ao ar o primeiro site nacional voltado para o ensino e divulgação de patchwork e quilt, o site
Pat Patches.  Idealizado pela artista plástica Patrícia Rosana, que vivenciando a dificuldade das quilteiras brasileiras em encontrar informações disponíveis em português, viu uma oportunidade para levar o conhecimento desta arte a todas as regiões do país. O site foi direcionado para ensino e divulgação. Informar, principalmente, para iniciantes, sobre a origem e técnicas do patchwork. através de diversos artigos, e cursos virtuais, dicas. Com um cadastro de mil e quinhentos clientes, o site funciona em um sistema de Clube Virtual, onde é possível fazer cursos on-line, receber dicas e informações e adquirir apostilas práticas e teóricas.
 

 

 




"Universo feminino" - Clube de Patchwork - SP. 
1º lugar na categoria tradicional grupo
 em Gramado /2004
.

 



"Serpentinas da noite" - Cristina Haberl - Gramado-RS.
1º lugar na categoria artística em Gramado/ 2004.

 (Imagem cedida pela comissão do festival Brasileiro de Patchwork e Quilt).

 

 
Em março de 2003 foi publicada a primeira revista nacional totalmente voltada para o público de patchwork e quilting, a revista Patch e Afins.  Além dela encontramos outras publicações de patchwork como a revista Mãos que Criam, Arte em patchwork entre outras publicações.

As brasileiras também podem contar com tecidos nacionais de qualidade, com estampas próprias para patchwork e quilting
.

Em 2004, a Singer lançou a « Quilter », a primeira máquina de costura brasileira especial para quem faz quilts. A brasileira também já pode contar com a máquina Janome MC6500 também dirigida ao público de patchwork e quilt. 


 "Salinas" - Maria Lúcia Ázara - Retrata as salinas da Região dos Lagos - RJ. Este trabalho foi um dos representantes brasileiros no
World Quilt Competition 2005.

 

 
  A brasileira que faz patchwork e quilting é em sua maioria de classe média, principalmente das regiões Sul e Sudeste e busca nesta atividade além do prazer uma forma de aumentar a renda familiar. O patchwork no Brasil ainda não encontrou a sua identidade. A brasileira inspira-se, em sua maioria, em livros e revistas estrangeiras, principalmente as revistas americanas e australianas. E tem preferência por trabalhos de aplicação e bordados. Fazer patchwork no Brasil é uma atividade cara, não disponível a todos, mas a criatividade e determinação de muitas brasileiras estão proporcionando o desenvolvimento dessa arte, que hoje, já deixou de ser apenas um trabalho de reaproveitamento de retalhos ganhando expressão tanto nacional como internacional.
Em 2005 o Brasil passou a participar do World Quilt Competition -(Estados Unidos). Foram selecionados 23 quilts do Brasil, dentre eles, foram escolhidos como os melhores do país os quilts: “Negrinho do Pastoreio” de Joyce Loss, Porto Alegre – RS como primeiro lugar e “Kaisen” de Marly Knust Rolim, Niterói – RJ como segundo lugar.

O quilt “Luas de Vinhos e Rosas” da brasileira Dóris Teixeira de Rio de Piracicaba – M.G. ganhou o terceiro lugar na categoria "Inovativo - Aplicação - Pequeno" no Festival Internacional de Houston de 2005.

A arte de quiltar no Brasil tem um longo caminho pela frente. Há muito o que se aprender como também o Brasil pode acrescentar muito de sua arte com fios e linhas no patchwork e, pelas apresentações nos últimos festivais, observamos que um estilo brasileiro está começando a nascer: alegre, colorido e cheio de vida.

 
 

 

Por Patrícia Rosana                                                                                                           **** revisão Selmy Araújo
Nov/2005


O termo patchwork possui várias nuances. Em aplicação ampla, designamos no artigo o termo patchwork como trabalho em retalhos, diferenciando-o, em alguns comentários, do patchwork tradicional americano e o quilting, termo que utilizamos para designar os quilts. Se você quer saber mais sobre a terminologia técnica dos termos, consulte o nosso artigo O que é Patchwork e muitos outros artigos e dicas em nosso site.
 

Agradeço a Selmy, que tão amável e incansavelmente, muito me ajudou na realização deste artigo, fazendo as traduções, bem como trocando idéias, informações e no contato com a Associação Francesa de Patchwork.
Selmy, muito muito obrigada!

Também agradeço a todos os profissionais que me enviaram dados e imagens para enriquecimento do artigo. 

 "Uma versão curta deste artigo foi publicada na revista da Associação Francesa de Patchwork "Les Nouvelles du Patchwork, n° 88" p.62-63.

 

     
 

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